Laboratório de Vivência

por Rodrigo Savazoni

Artigo originalmente publicado no caderno Link, do Jornal O Estado de S. Paulo

Começamos a procurar uma casa para alugar em janeiro de 2009. A ideia era reunir pessoas em torno de projetos sociais e culturais aliados às novas tecnologias. O nome já estava escolhido: Casa da Cultura Digital (CCD). Ela reuniria pessoas diferentes com ideias em comum. Teria de ser um espaço aberto, voltado à troca e ao convívio, com atividades formativas e muito tempo livre.

O primeiro espaço que encontramos foi perto da rua Augusta, e logo iniciamos a negociação para alugá-lo. Sem grana, tentamos um milagre, mas depois de dois meses, soubemos que a casa tinha sido vendida e seria posta abaixo. Foi um baque. Já estávamos em março. Para seguir com a ideia viva, montamos uma lista de discussão no Google.

Hoje, algumas pessoas dizem que a CCD é a lista. Pode ser. Eu a vejo como uma rede.

No fim de março, um amigo me ligou. Tinha passado em frente a uma vila na Barra Funda. Ele avistara, no portal de um lugarejo chamado Parque Savoia, uma placa de aluga-se. Tinha de ser ali. Não era uma casa, mas um castelo.

Em junho, com a reforma feita, contratos assinados, nos mudamos. O principal problema da primeira fase foi a falta de internet. A Casa da Cultura Digital não tinha conexão. Parece piada, mas não é. O jeito foi apelar para o wi-fi do vizinho. Foi nosso único canal de acesso ao ciberespaço por quase dois meses.

Agora, a Casa da Cultura Digital tem três anos. Parece muito mais.

Talvez a melhor definição para o que construímos seja “laboratório de vivências”. Nesse triênio, muita gente nova entrou, gente saiu e voltou, mudou de posição, resolveu abrir ou fechar seu “negócio”. Na CCD, projetos pululam e as relações horizontais grassam. Nos corredores, espaços livres, redes (de tear), cadeiras e mesas, pessoas trabalham e produzem. Na cozinha comunitária, é comum as pessoas se reunirem e conversarem enquanto preparam o próprio café. Em cima da geladeira, um balde recebe as contribuições voluntárias destinadas a renovar o estoque de cerveja.

Não seria possível definir a Casa da Cultura Digital exclusivamente como um espaço de trabalho, ou de formação, ou de articulação. A CCD é tudo isso, porque justamente permite a construção de uma outra forma de viver, ou seja, de cada um se relacionar com o tempo específico de sua existência.

Estamos em busca de uma ética da colaboração. Este é um dos princípios essenciais do software livre, que é o movimento matriz das organizações de cultura livre. Um dos desafios que está colocado para a Casa da Cultura Digital neste momento é, justamente, o de sistematizar sua experiência, colocar na pauta as notas dessa sinfonia, escrita pelo improviso, numa profusão de instrumentos em compasso distintos.

É uma música que soa bem aos ouvidos, mas de extrema complexidade melódica e harmônica. Um desafio salutar.

Uma resposta para “Laboratório de Vivência”

  1. Oi pessoal,

    Estou com um projeto em mente para um software de logistica por demanda para os catadores de recicláveis de São Paulo (aplicável a outros lugares, claro), sejam independentes ou organizados em cooperativas.

    Tenho a ideia para o software inteira pronta na minha cabeça e em alguns esboços, porém não sou programador, sou bibliotecário, então seria dificil pra mim tocar essa ideia sem apoio.

    Vocês poderiam me ajudar? Não quero dinheiro, só estou pensando em algo para o bem da cidade e dos carroceiros/catadores/recicladores.

    Alguém aí se interessaria em brainstormar a respeito?

    Aguardo qualquer tipo de contato.

    Abraços,

    João Pedro
    11-8428-3952

Deixe uma resposta