A colaboração move montanhas

Por Thiago Carrapatoso

O hype da cultura digital trouxe às discussões mais plurais o tema da colaboração e do estar em conjunto, no coletivo, na busca para achar o equilíbrio entre o que eu quero e o que as outras pessoas ao meu redor podem acrescentar. O tema virou título de palestras ao redor do mundo, até sendo descritivo de uma geração inteira – mesmo que os cunhadores de tal falácia terem apenas designado uma única letra do alfabeto para descrever todos. Colaboração é, hoje, o grande assunto da vez. Empresas e mais empresas querem estar ao lado do significado lindo e singelo da palavra. Seres humanos com um pouco mais de virtuosidade para enteder seu próprio umbigo querem o conceito para enriquecer ainda mais os bolsos. É o “goodwashing”, ou seja, vamos lavar todos os nossos malefícios recebendo este selo de qualidade e de “bom cristão” que colabora com todos.

Não.

O hype é apenas o hype. Daqui a pouco é substituído por outro. É a palavra do ano, da década ou até do século. Mas tem data para acabar. Essa emergência latente que a sociedade emana é captada por alguns seres provindos de sensibilidade única, que lançam uma luz aos anseios mais insignificantes da real grande questão humana: a vida. São eles que farejam o próximo acontecimento, a próxima necessidade, a próxima inquietação, a próxima verdade. O artista é, então, um catalisador, uma antena, um tradutor.

Digo tudo isso porque hoje me deparei com uma obra do artista belga Francis Alÿs de 2002, que demonstra muitas discussões que temos hoje em dia com a democratização do acesso à rede. Alÿs, para realizar a obra “When Faith Moves Mountains”, recrutou 500 pessoas para irem até uma duna em Lima, no Peru, e cavassem para movê-la em 10 cm para o lado. Com um simples movimento de pá de cada um, a duna seria realocada por causa da colaboração de todos. Na obra não interessa o resultado ou quantos centímetros a duna se moveu – ou se realmente ela chegou a se mexer -, mas o processo colaborativo por trás de todo princípio. Não foi algo fácil ou simples de se realizar. O sol quente e difícil coordenação de tantas pessoas juntas fizeram a tarefa ser um pouco ingrata, como se pode ver pelos depoimentos no vídeo. Mas o poder de mudança e de reestruturação quando se reúnem diversas pessoas para o mesmo fim está lá. É a mesma ideia que hoje se discute(ia?) tanto por causa das ferramentas disponíveis na internet.

Ressaltando: este vídeo foi gravado em 2002.

Há quase 10 anos, o Orkut ainda nem tinha sido criado e o Creative Commons mal tinha lançado seu primeiro pacote de licenças. A discussão, então, sobre como cooperar para um determinado fim, se ela existiu, ainda era embrionária. Mesmo assim, visível na obra de Alÿs.

Muito desse ineditismo e pioneirismo presentes no conceito de artista pode ser explorado quando o assunto é a arte digital (ou, traduzindo do termo em inglês, arte das novas mídias). Os artistas possuem intrinsicamente o papel de desbravadores do suporte. São eles que desconstróem e tentam entender até que ponto aquele determinado meio pode ser explorado para além do que ele já é conhecido. Os artistas dão (ou tentam dar) o próximo passo, que, depois, será revertido para a sociedade e inserido no cotidiano como algo comum.

Mas, voltando às obras de Alÿs, é interessante ver também a preocupação do artista em liberar suas obras para download e o remix, permitindo com que qualquer um se apodere do material coletado e o transforme em um outro, colaborando com a construção e demonstração do próprio conceito e questão debatidos.

Dois museus aqui de Nova Iorque, o MoMA e o PS1, expuseram recentemente algumas de suas obras para celebrar a aquisição do material. E como diz o descritivo do evento: “estes trabalhos apresentam uma investigação dos métodos de ações sociais, de ensaios e reatuções no ambiente urbano que questionam as políticas dos espaços públicos e até a participação coletiva em larga escala, na qual o resultado de pequenos atos atingem proporções míticas.”

E é interessante ver como a formação de uma linha por centenas de pessoas podem remeter à expansão territorial de um povo latente por mudança. Não é só o ideal de tirar uma duna e levá-la 10 cm ao lado. É a demonstração real de uma expansão social desenfreada, que modifica a paisagem de forma desestruturada, porém coletiva.

Um outro artista, o Edward Burtynsky, gravou um filme chamado “Manufactured Landscapes”, ou seja, paisagens fabricadas, em que demonstra a ação do homem na alteração das paisagens de que nos cerca. A paisagem, aqui, não é apenas aquela construída pela natureza, mas sim pela mão humana, como fábricas chinesas gigantescas ou áreas de exploração intensa de petróleo. Alguns questionamentos de Alÿs são levados à extrema potência nos trabalhos de Burtynsky. Qual é o limiar entre o natural e o artificial? O que é a modificação da paisagem? E o que é o coletivo?

Para este texto, porém, o mais importante é a questão latente da colaboração ainda no príncipio do milênio e como isso tem a ver, mesmo que indiretamente, com a construção de uma cultura digital atual, em que pás são distribuídas democraticamente a qualquer um interessado e montanhas são movidas a cada segundo para distâncias cada vez maiores. A paisagem é modificada com simples linhas de códigos. E remodificada com uma linha a mais escrita por alguém em um país bem distante do seu.

One Response to “A colaboração move montanhas”

  1. Nesta edi ão, ousamos uma realiza ão 100 via internet, pautados no objetivo de contribuir com a cultura digital no Pa s.

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